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"Tudo nunca sempre o mesmo diferente nada"
Como caracterizas este novo projeto “Tudo nunca sempre o mesma nada diferente”, a ser apresentado, no dia 1 de março, no Teatro Campo Alegre?

Portanto, este projeto é uma ópera. Nasce da minha tese de doutoramento e a ideia era fazer uma ópera no sentido mais clássico do termo, seguindo as regras básicas de uma ópera, e depois aplicar aquilo que é o meu género musical de expressão, a que eu chamei de “música não narrativa”. E esta era a polémica da minha tese porque teoricamente esta música seria incompatível com o género operático. Ao aplicar uma música “não narrativa” num género que é por essência narrativo, tenho um problema, um conflito paradoxal. E foi sobre isto que eu me debrucei na composição desta peça. Este projeto envolve uma estrutura instrumental muito diferente da ópera clássica porque, normalmente, temos a orquestra e, neste caso, eu uso muito eletrónica e apenas oito instrumentistas. Isso poderia implicar aquele conceito de “ópera de câmara”, como ópera pequena, mas a ideia é que hoje em dia a dimensão de orquestra que acompanha a história dos cantores não defina, de certa forma, a grandiosidade da história, mas sim a própria história. A ópera de câmara, normalmente, tem uma temática mais ligeira ou um pequeno conto e achei que deveria ir mesmo por aí. A minha pretensão era fazer uma grande ópera, no sentido clássico, de uma grande encenação para uma sala grande, mas com um pequeno conjunto instrumental a acompanhar.

A opção por uma encenação tripartida — com a Sónia Baptista, Leonor Keil e Sara Carinhas — deveu-se ao carácter fragmentário conferido pelos textos de diferentes origens que são utilizados neste trabalho?

A escolha das três encenadoras nasce da ideia do libreto. Normalmente a ópera é considerada – e eu acho bem! – como um conjunto de várias artes em simultâneo. O próprio Wagner dizia que a ópera “é uma obra de várias artes em simultâneo”. E, no caso da música, que é o que me diz mais respeito, há um conjunto enorme de questões aleatórias, uma vez que a cada nova apresentação os instrumentos soam ligeiramente diferente. Quando comecei a trabalhar o texto, não me senti confortável em ter um texto completamente concebido de início ao fim e, então, usei fragmentos muito curtos, mesmo muito curtos, de diversos autores e de diversas origens, desde grandes nomes da Literatura como James Joyce até sms de amigos que me escreviam e que eu registava num bloco de notas. Depois, fiz um puzzle com estes textos de forma a construir um significado com aquilo. Quando chegou a altura de procurar um encenador que estivesse disposto a participar neste projeto, surgiram três hipóteses e lancei a ideia de ter três encenadores e a produtora achou uma ótima ideia. Da mesma forma que o texto está fragmentado por diversos autores, temos uma encenação que foi dividida e cada encenadora escolheu a sua parte. Com a Leonor Keil tenho uma relação que já vem da há algum tempo, porque os nossos pais eram amigos e ela também tinha interesse em começar a fazer encenações, coreografias – uma vez que é bailarina. Este libreto que eu escrevi – quer dizer, na verdade eu não escrevi uma palavra – foi editado pela magnífica editora do Nuno Moura, “Correria”, em Lisboa. A Sónia Baptista viu o libreto, contactou o editor e disse que queria trabalhar nisto e foi assim que entrou no barco. A Sara foi uma espécie de acidente porque de repente precisávamos de uma terceira encenadora e foi proposta pela Sónia e entrou já numa última fase do projeto. A peça resultou de um conjunto fragmentado de encenações mas que se compatibilizam e que permitem diversas leituras, tal como o próprio texto propícia que se interprete de diferentes formas.

A estreia aconteceu no passado sábado, dia 23 de fevereiro, no Teatro Municipal da Guarda. Consideras que o resultado apresentado foi de encontro ao que era pretendido inicialmente?

Eu fiquei mesmo muito satisfeito. Era um projeto muito complicado. Eu sou compositor e, de repente, entrei na área da ópera com um conjunto de desafios a que não estava habituado, sendo a minha primeira experiência. E portanto, surgem imensas coisas que um compositor já com grande trabalho nunca tinha lidado. Mas, quando estava a compor e estava apenas numa fase teórica de perceber na minha cabeça como gostaria que isto fosse, aquilo que vi neste sábado está bastante parecido com o que tinha imaginado. E quando isto acontece com qualquer artista – que tem primeiro um impulso imaginativo e depois há a realização – e quando as duas se aproximam, normalmente o artista considera-se bem-sucedido. E depois há o público, que é outra história. A sala estava bastante composta – o que já um sucesso quando se trata de música contemporânea. É uma música difícil, contemporânea, e isso é uma problemática, não sei se queremos ir por aí, mas que a música erudita contemporânea é tão inacessível ou é tão complicada para atrair públicos. Se calhar essa é a nossa sina, sermos para um público minoritário. Mas a reação foi positiva. Mas acima de tudo, eu estou satisfeito com o que produzi.


Fotografia © Francisco Ferreira
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